Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

14
Dez 06

À meia-noite um assobio
de cristal o anunciava.
Lourinho de ovos em fio
o seu cabelo soltava

na mesa para que nas bocas
recém-nascidamente fosse
a Eternidade resolvida
em metáfora de doce.

Bilingue de céu e terra
num favo de luz impresso
era tão fácil de ler
que nele aprendi os versos.

Espirito amorado em flor
sem punhado de palhinhas
orvalhava era o licor
santo da sua mijinha.

Natal agora na alma
é infancia a rapar frio.
Enjeita-a o destino. Ai,
que se partiu o menino

Natália Correia

 

publicado por Vânia Caldeira às 21:37

13
Dez 06

 

Todo o santo dia Jorge detinha-se na montra diáfana da sua loja preferida. Pousava a mochila e os manuais que lhe auguravam uma escoliose precoce. Seguia-se um cigarro e o Ipod para lá dos limites do suportável. Qualquer coisa entre os Korn e os Marilyn Manson, que os decibéis existem para calar o silêncio da alma. Por fim, repousava os olhos na primeira prenda de Natal que iria ser realmente sua. Dele e apenas dele. Este ano tinha decidido oferecer-se um presente – com notas tão boas e sem faltas injustificadas, bem merecia uma recompensa. Algo de que gostasse realmente. Nada daqueles pijamas, camisolas, cahecóis e gorros de lã grossa com que a família declarava o seu amor incondicional.
Repetiu o ritual matematicamente até à véspera da Consoada. Penou durante um mês, fez uns biscates e poupou na mesada. Afinal, há sacrifícios que valem a pena. Os pais estranharam a princípio a férrea disciplina, mas acabaram por convencer-se de que o filho tinha, finalmente, entrado na linha. Com notas destas, tinha-se-lhe metido algum juízo na cabeça. Devia ser da nova namorada.
Chegou o dia mais aguardado. Um nervoso miudinho enrugava-lhe a testa adolescente e salientava o acne, esse cancro juvenil sem cura nem medicina à vista. Mas Jorge estava feito um homem. Depois de tanto trabalho, com mealheiro próprio e sem calotes, dava provas de autonomia e independência.
- Quanto é?
- São 250 euros.
- Aqui está.
- Sabes como é que funciona?
- Claro. Acha que eu sou algum miúdo?
- Claro que não. Diverte-te.
Guardou o embrulho na mochila com devoção religiosa. Sentia-se o ser humano mais feliz do Mundo e decidiu partilhar o júbilo que lhe transbordava no coração. Antes de se encontrar com a namorada, no parque municipal, ainda ajudou uma jovem mãe, ou talvez mãe jovem, com o seu carrinho de bebé, a descer a escadaria do shopping.
- Olhe que está frio. É melhor tapá-lo.
- Ai, muito obrigado. És muito simpático.
- Obrigado. Feliz Natal.
- Feliz Natal para ti também.

Pais, tios, primos, irmãos, sobrinhos. A mesa farta irá daí a nada a ser tomada de assalto como uma companhia cercada num teatro de guerra. Alinham-se estratégias para chegar ao arroz-doce mais distante. Escondem-se as filhoz debaixo das pilhas de guardanapos. Debulha-se a dose à velocidade da luz não vá o vizinho do lado ser mais ágil com os nervos da boca. São muitos os comensais, e ainda mais as iguarias, mas ninguém quer ficar a perder. Excepto Jorge, que não repete o bacalhau e deixa a meio a fatia de bolo-rei. O primo interrompe-lhe a refeição. E, o que é mil vezes pior, desalinha-lhe a lógica dos pensamentos.
- Então, os teus pais sempre te vão dar a Playstation Z?
- Não sei…
- Isso era mesmo fixe. Tenho ali o Total Combat 4 e podíamos jogar quando eles forem todos para a Missa do Galo.
- Iá, desse ver mesmo fixe – retorquiu com enfado e sem nesga de convicção.
Jorge não presta atenção. Só lhe interessa o presente escondido na gaveta das boxers. Olha para o relógio e conta penosamente todos os segundos.

Faltam dois minutos para a meia-noite. Finalmente, o pai, figura tutelar da família, anuncia solenemente a troca de presentes. Jorge pede servilmente autorização para ir ao quarto buscar uma prenda. São desembrulhadas piadas de caserna, episódios caricatos e memórias festivas com cada um dos pacotes. Risos, trocadilhos e chalaças de barriga cheia. Jorge entra no quarto e abre a gaveta
- Então, Jorge, nunca mais vens? – grita o pai da sala enquanto enche o copo.
- Vou já, é só um bocadinho.
Bang-Bang.
Um som estridente interrompe abruptamente a folia na sala de jantar. Lucinha, a irmã mais nova de Jorge, que tinha ido à casa de banho, entra no quarto e encontra um bilhete a vagar numa poça de sangue. “Feliz Natal”.

publicado por Vânia Caldeira às 08:29
música: http://muitobarulho.wordpress.com/2006/11/22/conto-de-natal/

12
Dez 06

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

publicado por Vânia Caldeira às 17:55
sinto-me:

11
Dez 06

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

publicado por Vânia Caldeira às 20:41

10
Dez 06

Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa

publicado por Vânia Caldeira às 17:54
sinto-me:

Dezembro 2011
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1
2
3

4
5
6
7
8
9
10

11
12
13
14
15
16
17

18
19
20
21
22
23
24

25
26
27
28
29
30


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

subscrever feeds
mais sobre mim
pesquisar
 
blogs SAPO