Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

21
Mar 07

QUEM ÉS TU?

"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."

Sophia de Mello Breyner



É URGENTE O AMOR

É urgente o amor

É urgente um barco no mar.

 

É urgente destruir certas palavras,

Ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,

Multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e risos

e manhãs claras.

 

Cai o silêncio no pano e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

Eugénio de Andrade

TENHO DÓ DAS ESTRELAS

Tenho dó das estrelas

Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo…

Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço

Das coisas,

De todas as coisas

Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser,

O ser triste brilhar ou sorrir…

Não haverá, enfim,

Para as coisas que são,

Não morte, mas sim

Uma outra espécie de fim,

Ou uma grande razão –

Qualquer coisa assim

Como um perdão?

Fernando Pessoa

EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

 

publicado por Vânia Caldeira às 21:26

17
Dez 06

Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

Sidónio Muralha
P.S. Árvore de Natal que está no hall de entrada da Faculdade de Medicina de Lisboa

 

publicado por Vânia Caldeira às 15:43

16
Dez 06

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

publicado por Vânia Caldeira às 15:05

15
Dez 06

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

David Mourão-Ferreira

publicado por Vânia Caldeira às 21:58

14
Dez 06

À meia-noite um assobio
de cristal o anunciava.
Lourinho de ovos em fio
o seu cabelo soltava

na mesa para que nas bocas
recém-nascidamente fosse
a Eternidade resolvida
em metáfora de doce.

Bilingue de céu e terra
num favo de luz impresso
era tão fácil de ler
que nele aprendi os versos.

Espirito amorado em flor
sem punhado de palhinhas
orvalhava era o licor
santo da sua mijinha.

Natal agora na alma
é infancia a rapar frio.
Enjeita-a o destino. Ai,
que se partiu o menino

Natália Correia

 

publicado por Vânia Caldeira às 21:37

12
Dez 06

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.
Assim será nossa vida:
Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito o que dizer:
Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes

publicado por Vânia Caldeira às 17:55
sinto-me:

11
Dez 06

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação. 

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga

publicado por Vânia Caldeira às 20:41

10
Dez 06

Natal... Na província neva.

Nos lares aconchegados,

Um sentimento conserva

Os sentimentos passados.

Coração oposto ao mundo,

Como a família é verdade!

Meu pensamento é profundo,

Estou só e sonho saudade.

E como é branca de graça

A paisagem que não sei,

Vista de trás da vidraça

Do lar que nunca terei!

Fernando Pessoa

publicado por Vânia Caldeira às 17:54
sinto-me:

27
Set 06

 

 

Em dias de desalento e tristeza,

Quando não sabes onde vais

Algo buscas sem encontrar,

Qualquer coisa, um pouco mais.

Quando a melancolia se apodera

Ou a raiva em nós salta

Há um vazio, um espaço em vão

Qualquer coisa que nos falta.

E mesmo em tempos felizes

Em dias de sol aberto,

Algo clama a nossa atenção,

Algo anseia ser descoberto.

Porque o homem na sua realização

Deste percurso de vida tão estreito

Quer sempre ir mais além,

Está sempre insatisfeito.

Pela ambição ele se conduz,

Pelo direito de ser maior

Por novas metas a alcançar

Por um horizonte mais promissor.

 

Novos ideais, novas esperanças,

Un novo rio, uma nova ponte,

Aventuras, desafios,

Um NOVO HORIZONTE.

            

Vânia Caldeira

publicado por Vânia Caldeira às 21:59
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