Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

09
Jul 07

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"Eu perseguia aquele rosto em busca de um sentido que a noite me abrisse, de uma verdade original e absoluta, mas a sua expressão permanecia intacta, na vertigem dos olhos agora semicerrados num abismo infinito. (...) Tomado por um impulso que ainda hoje não sei explicar, peguei-lhe num braço e levei-a devagar para fora dali: contra a minha expectativa, ela cedeu e deixou-se arrastar até à escada, que subimos sem dificuldade. (...)

O céu ganhara a cor arroxeada que antecede a aurora e debruçámo-nos alguns instantes, absortos na contemplação do rio e de duas majestosas gruas que me despertaram para o peso maciço da realidade. (...)

... ela sentou-se mesmo junto à beira da varanda, virada para fora, com as pernas suspensas no ar e as mãos agarradas ao gradeamento, que era aberto em baixo e lhe deixava espaço suficiente para escorregar. Estava na posição arriscada de quem prepara um salto no vazio - bastaria que uma das mãos se soltasse e...

Adverti-a dos perigos daquela altitude, mas obtive apenas mais um benévolo sorriso, onde podia ler um misto de orgulho e comiseração que por um instante me incomodou. Como eu insistia em puxá-la para cima, ela irrompeu numa gargalhada líquida e disse devagar, num tom estranhamente solene mas talvez adequado às circunstâncias:

- Quero olhar para a morte de frente e sem medo. Preciso de me habituar a ela, de a ver como uma velha amiga que me convida a entrar em sua casa. Não deve ser mais do que isso."

Fernando Pinto do Amaral in Área de Serviço e outras histórias de amor

("Discoteca")

publicado por Vânia Caldeira às 14:36
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23
Mar 07

"É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.

Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?"

Alberto Caeiro

publicado por Vânia Caldeira às 23:20
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21
Mar 07

QUEM ÉS TU?

"Quem és tu que assim vens pela noite adiante,
Pisando o luar branco dos caminhos,
Sob o rumor das folhas inspiradas?

A perfeição nasce do eco dos teus passos,
E a tua presença acorda a plenitude
A que as coisas tinham sido destinadas.

A história da noite é o gesto dos teus braços,
O ardor do vento a tua juventude,
E o teu andar é a beleza das estradas."

Sophia de Mello Breyner



É URGENTE O AMOR

É urgente o amor

É urgente um barco no mar.

 

É urgente destruir certas palavras,

Ódio, solidão e crueldade,

alguns lamentos,

muitas espadas.

 

É urgente inventar alegria,

Multiplicar os beijos, as searas,

é urgente descobrir rosas e risos

e manhãs claras.

 

Cai o silêncio no pano e a luz

impura, até doer.

É urgente o amor, é urgente

permanecer.

Eugénio de Andrade

TENHO DÓ DAS ESTRELAS

Tenho dó das estrelas

Luzindo há tanto tempo,

Há tanto tempo…

Tenho dó delas.

Não haverá um cansaço

Das coisas,

De todas as coisas

Como das pernas ou de um braço?

Um cansaço de existir,

De ser,

Só de ser,

O ser triste brilhar ou sorrir…

Não haverá, enfim,

Para as coisas que são,

Não morte, mas sim

Uma outra espécie de fim,

Ou uma grande razão –

Qualquer coisa assim

Como um perdão?

Fernando Pessoa

EM TODAS AS RUAS TE ENCONTRO

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

conheço tão bem o teu corpo

sonhei tanto a tua figura

que é de olhos fechados que eu ando

a limitar a tua altura

e bebo a água e sorvo o ar

que te atravessou a cintura

tanto, tão perto, tão real

que o meu corpo se transfigura

e toca o seu próprio elemento

num corpo que já não é seu

num rio que desapareceu

onde um braço teu me procura

Em todas as ruas te encontro

Em todas as ruas te perco

Mário Cesariny

 

publicado por Vânia Caldeira às 21:26

14
Mar 07

Finalmente o merecido prémio... António Lobo Antunes foi o vencedor do Prémio Camões 2007. Um escritor fenomenal e transcendente, cujas palavras nos reportam para novas perspectivas dum mesmo mundo. Vale sem dúvida a pena ler Lobo Antunes. A quem não leu, não percam a magnífica oportunidade!

"Quantos anos tenho? , interrogou-se ele procedendo à periódica verificação de si próprio que lhe permitia um entendimento precário com a realidade exterior, substância viscosa em que os seus passos se afundavam, perplexos, sem destino. As filhas, o bilhete de identidade e o lugar no hospital ancoravam-no ainda ao quotidiano mas por tão finos fios que prosseguia pairando, sementinha peluda de sopro em sopro, a hesitar. Desde que se separara da mulher, perdera lastro e sentido (...). Ultimamente observando-se ao espelho, achava que as próprias feições se desabitavam, as pregas do sorriso davam lugar às rugas do desencorajamento. No seu rosto havia cada vez mais testa (...). E desejou rapidamente retornar à linha de partida, em que as promessas de vitória são não apenas permitidas mas obrigatoriamente desejáveis: o campo dos projectos que se não realizam nunca era um pouco a sua pátria, o seu bairro, a casa de que conhecia de cor os mínimos recantos, as cadeiras coxas, os insectos, os cheiros íntimos, as tábuas que estalavam."

António Lobo Antunes in Memória de Elefante

publicado por Vânia Caldeira às 21:55
sinto-me:

03
Fev 07

- "Quem és tu?", perguntou o principezinho. "Tu és bem bonita..."

- "Sou uma raposa", disse a raposa 

- "Vem brincar comigo", propôs o principezinho. "Estou tão triste..."

- "Eu não posso brincar contigo", disse a raposa. "Não me cativaram ainda..."

- "Ah! desculpa", disse o principezinho.

Após uma reflexão, acrescentou:

- "Que quer dizer "cativar"?"

- "Tu não és daqui", disse a raposa. "Que procuras?"

- "Procuro os homens", disse o principezinho. "Que quer dizer "cativar"?"

- "Os homens", disse a raposa, "têm fuzis e caçam. É bem incómodo! Criam galinhas também. É a única coisa interessante que fazem. Tu procuras galinhas?"

- "Não", disse o principezinho. "Eu procuro amigos. Que quer dizer "cativar"?"

- "É uma coisa muito esquecida. Significa "criar laços..." "

- "Criar laços?", questionou o principezinho.

- Exactamente. Tu não és para mim senão um rapaz inteiramente igual a cem mil outros rapazes. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativares, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo..."

in Antoine de Saint-Exupéry, O Principezinho

P.S. Já agora passem por http://contosdefadas.blogs.sapo.pt/, um blog apaixonante de onde eu copiei este lindo excerto do Principezinho.

publicado por Vânia Caldeira às 11:31
sinto-me: única
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25
Jan 07

Amo-te quando em largo, alto e profundo
Minha alma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
à luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé da minha infância, ingénua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

Elizabeth Barrett Browning

publicado por Vânia Caldeira às 23:12
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17
Dez 06

Hoje é dia de Natal.

O jornal fala dos pobres

em letras grandes e pretas,

traz versos e historietas

e desenhos bonitinhos,

e traz retratos também

dos bodos, bodos e bodos,

em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?

Sidónio Muralha
P.S. Árvore de Natal que está no hall de entrada da Faculdade de Medicina de Lisboa

 

publicado por Vânia Caldeira às 15:43

16
Dez 06

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro da minha alma.
E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.
Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho,
Soas-me na alma distante.
A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

publicado por Vânia Caldeira às 15:05

15
Dez 06

É o braço do abeto a bater na vidraça?

E o ponteiro pequeno a caminho da meta!

Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,

A trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.

Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!

E o Menino nascia a bordo de um navio

Que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!

Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.

E quanto mais na terra a terra me envolvia

E quanto mais na terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me

À beira desse cais onde Jesus nascia...

Serei dos que afinal, errando em terra firme,

Precisam de Jesus, de Mar, ou de Poesia?

 

David Mourão-Ferreira

publicado por Vânia Caldeira às 21:58

14
Dez 06

À meia-noite um assobio
de cristal o anunciava.
Lourinho de ovos em fio
o seu cabelo soltava

na mesa para que nas bocas
recém-nascidamente fosse
a Eternidade resolvida
em metáfora de doce.

Bilingue de céu e terra
num favo de luz impresso
era tão fácil de ler
que nele aprendi os versos.

Espirito amorado em flor
sem punhado de palhinhas
orvalhava era o licor
santo da sua mijinha.

Natal agora na alma
é infancia a rapar frio.
Enjeita-a o destino. Ai,
que se partiu o menino

Natália Correia

 

publicado por Vânia Caldeira às 21:37

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