Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

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Abr 08


Nunca se sentira capaz de fazer nada sozinho. Por isso, olhava o austero prédio e hesitava. Perdia minutos e minutos naquela incerteza que o destruía, naquela insegurança castradora.
Os muitos anos de consumo de drogas tinham-lhe deixado marcas profundas, não no rosto - que, aliás, se poderia dizer muitíssimo "bem conservado" para o atentado continuado que fizera à sua própria saúde - mas na alma. À medida que a heroína ganhava terreno na sua vida, ele perdia-o, o chão fugia-lhe e ele tornava-se cada vez mais pequeno. Minúsculo, ridículo... perante a enormidade do seu vício.
Recordava, com desgosto, o maldito dia em que conhecera esse mundo oculto. Mundo inicialmente perfeito... uma nova experiência que partilhava com os "amigos", o prazer após cada dose, o sentimento de poder absoluto. Tudo não passava de uma brincadeira, apenas quando apetecesse, apenas quando ele quisesse. Não passaria muito tempo até que se aperceberia da falta de verdade dessa ideia. Nada dependia já dele. Perdera o controlo, ganhara a dependência.
Uma dependência física, sem dúvida. As ressacas eram dantescas idas ao Inferno, cujo único bilhete de regresso parecia ser uma nova dose. Às dores insuportáveis acumulava-se a angústia de simplesmente não ser capaz. Querer largar e não poder. Tentar e não conseguir.
Apesar de perceber como aquilo lhe fazia mal, como a dor excedia em muito qualquer prazer que o vício lhe pudesse conceder: ele simplesmente não era capaz.
Para dissimular a sua própria desilusão, mas também a alheia (a daqueles que mais o amavam), procurava convencer-se que essa incapacidade era linearmente fisiológica. Mas, no fundo, a verdade teimava em atormentá-lo. Sentia que não passava de um fraco, ao não conseguir aquilo que mais queria - largar o vício.
Anos e anos de tentativas, de investimentos por parte dos que o rodeavam, de apoio de todos, cocktails de fracassos e desilusões que terminavam sempre no mesmo: a recaída. Anos que o perseguiam e que o perseguiriam a vida toda, confrontavam-no agora ali, naquele momento, enquanto atravessava a passadeira e se aproximava da entrada do edifício.
Há 3 anos que deixara de consumir, tempo demais para si, demasiado pouco tempo para os outros, aqueles que tentavam confiar que desta vez seria definitivo. O que mais lhe custava era a sensação de ter perdido uma enorme fatia da sua vida, a melhor. E agora, apenas lhe restavam algumas migalhas que teria de aproveitar, após esta sua reaprendizagem da vida, um duro recomeço. Além disso, a droga deixara-lhe inúmeros receios e fragilidades. Era como se sem ela, não conseguisse fazer nada... não fosse capaz de pensar, de estar com ninguém, de dar o melhor de si mesmo.
Por isso, hesitava em frente ao elevador...
Lembrou-se então do verde dos olhos dela. O verde no qual se encontrara e a calma inabalável que eles lhe transmitiam, a certeza de que um mundo melhor era possível e estava para lá da porta daquele elevador. Ela era o significado que ele encontrara para a sua vida. Respirou fundo, guardou com carinho o belo rosto dela algures nos recônditos escondidos da memória, e prometeu a si mesmo que desta vez seria diferente: não iria desiludir mais ninguém, muito menos ela... que sempre confiara verdadeiramente nele.
Entrou no elevador de cabeça erguida, com a certeza de que a entrevista lhe correria muitíssimo bem e que o emprego seria seu. Agora acreditava nele e nas suas capacidades. Era mais homem, mais completo. E tudo isso lhe devia a ela e à força do seu amor. Esse, era sem dúvida, o melhor de todos os vícios.
publicado por Vânia Caldeira às 14:26

Chega...
André a 23 de Abril de 2008 às 05:57

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