Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

02
Abr 07

Finalmente de férias... E que merecidas férias!

Sinto que nunca supliquei tanto por elas e sobretudo que nunca souberam tão bem... como desta vez. Apesar de se resumirem a uma singela semana, que passará (nesse sentido, não será diferente mas como todas as férias), a voar... cada dia será muito especial.

Vou parar? Nem por isso. Tenho imensas coisas para fazer. Mas pelo menos posso gerir o meu tempo e escolher o que fazer.

Posso escolher estudar Anatomia, Fisiologia ou Biologia Molecular... ou não estudar simplesmente.

E, sobretudo, posso fazer tudo o que vejo reduzido em tempo de aulas: sair à noite para beber café, ler (que falta que eu sinto de ler verdadeira literatura, e o Netter e o Rouviere que me perdoem, mas estou tão farta), ver muitos filmes (alugá-los todos), ver televisão, ouvir música, andar de carro, ir ao centro comercial, sair com os amigos, ir à praia... ou, simplesmente, dormir. E não ter nada para fazer.

Ou ter coisas para fazer, mas poder escolher.

A escolha, a liberdade é algo maravilhoso...

Aliás, o mais curioso de tudo no programa dos Grandes Portugueses, em que Salazar saiu vitorioso, é o conceito de "liberdade". Detentores da sua liberdade de expressão, os portugueses de hoje elegeram uma personalidade que, certamente, no seu tempo, não teria permitido esta liberdade de voto. Interessante, não? O programa teria sido, no mínimo, censurado. E hoje é a ele que o elegem.

Também é curioso que tenha ganho, a única figura que, de alguma forma, afectou alguns dos restantes grandes portugueses. Salazar perseguiu Aristides, atormentou Pessoa... É, no mínimo, chocante que Portugal se reduza a isto... que os dois grandes portugueses sejam políticos e sobretudo que tentemos mostrar que o melhor que se faz em Portugal é política. E é óbvio que não é! A nossa história e a nossa cultura são o que realmente dão o nome ao País, a primeira criou-o, construiu-o, a segunda inventou-o, deu-lhe asas e uma identidade. D. Afonso Henriques lutou contra tudo e todos para erguer um país, D. João II acreditou que o sonho era possível e foi o começo do grande acontecimento dos Descobrimentos, em que figuraram magníficas figuras como o eterno descobridor, o Infante D. Henrique ("Deus quer, o homem sonha, a obra nasce. (...) Cumpriu-se o Mar, e o Império se desfez, Senhor falta cumprir-se Portugal!"), ou o exímio navegador, Vasco da Gama ("O céu abrir o abismo à alma do Argonauta."). O Marquês de Pombal reconstruiu toda uma cidade, a nossa capital a partir da destruição, da miséria, do sofrimento e do nada que restou do terramoto. Nas Letras tivémos grandes "cantores" da nossa história que nos deixam um legado valiosíssimo. Os expoentes máximos da língua portuguesa. Camões cantou a glória portuguesa num estilo épico e, simultaneamente, abriu todas as limitadas fronteiras da percepção humana da época para a mulher e para o amor. É o nosso passado, o nosso presente e o nosso futuro. Mas como disse Sophia de Mello Breyner: "Este país que te mata lentamente." Quando matamos a identidade portuguesa, o orgulho no nosso país, matamos Camões lentamente. E, por fim, Pessoa. Simplesmente genial na diversidade, certamente mais egocêntrico e consciente da sua genialidade que Camões, mas um eterno senhor das letras portuguesas e da poesia. A poesia de uma vida (ou de várias vidas em cada verso), a constante capacidade de criar e de se recriar a ele mesmo, a constante atenção a um país decadente (Tudo é incerto e derradeiro. Tudo é disperso, nada é inteiro. Ó Portugal, hoje és nevoeiro... É a Hora! ") e a certeza de que o seu legado o representaria ("O universo passa e eu fico.")

Além disso, como li num texto de António Pinto Leite no Expresso, o próprio Salazar não teria votado em Salazar, tendo em conta os seus valores (com grande foco na história e cultura portuguesas)...

Não tanto pela esperada vitória de Salazar, mas por muitos outros motivos, o programa desiludiu-me. Primeiro porque, entre os 10 grandes portugueses, parece impossível que não esteja uma mulher. Ou talvez evidencie o que aconteceu ao longo dos anos na história portuguesa e mundial e que, é a causa da actual revolta feminina em todos os campos: o encobrimento da mulher. Uma mulher que esteve sempre lá... escondida. Que sempre esteve como base da educação dos seus filhos, entre os quais os grandes portugueses homens; que muitas vezes foi obrigada a escrever com a sua mão, a sua genialidade e inspiração, mas a assinar com um género diferente, o género do machismo... A mulher, que ao longo de séculos, viveu no esquecimento, na escuridão, na discrição...

Também não se percebe que não se encontre entre os 10 grandes portugueses, nenhum grande nome da Medicina portuguesa, como Egas Moniz, António Damásio, João Lobo Antunes (que eu tive a magnífica oportunidade de ouvir dar uma aula)...

Depois os apresentadores do programa não estiveram em dias particularmente inspirados. Os defensores dos grandes portugueses não estavam em posições semelhantes, tendo ficado, por exemplo, Fernando Pessoa, claramente inferiorizado relativamente a Camões.

O preconceito predominou constantemente no programa... Preconceito contra o álcool, a homossexualidade, ... preconceito contra as mulheres. Numa tentativa (falhada) de defender Pessoa, um dos membros da plateia soletrou com toda a determinação os órgãos genitais femininos, tendo deixado apenas um silêncio (de constrangido), quando era suposto referir os masculinos. Muito machismo, muito preconceito...

Num programa de aparente democracia, ganhou um ditador!

De qualquer forma, Salazar está de parabéns, foram as primeiras eleições que ganhou sem corrupção. Foi eleito por um país que goza de uma liberdade para nomear Salazar, liberdade que o próprio hoje oprimiria... Mas isso não interessa, pois não?

 

"Hoje de manhã saí muito cedo,
Por ter acordado ainda mais cedo
E não ter nada que quisesse fazer...

Não sabia que caminho tomar
Mas o vento soprava forte, varria para um lado,
E segui o caminho para onde o vento me soprava nas costas.

Assim tem sido sempre a minha vida, e
Assim quero que possa ser sempre
Vou onde o vento me leva e não me
Sinto pensar."

                    Alberto Caeiro

publicado por Vânia Caldeira às 11:55
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