Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

29
Nov 06

Não: não digas nada

Supor o que dirá

A tua boca velada

É ouvi-lo já

 

É ouvi-lo melhor

Do que o dirias

O que és não vem à flor

Das frases e dos dias

 

És melhor do que tu

Não digas nada, sê

Graça no corpo nu

Que invisível se vê

Fernando Pessoa

publicado por Vânia Caldeira às 16:36
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26
Nov 06

 

Entre nós e as palavras há metal fundente
entre nós e as palavras há hélices que andam
e podem dar-nos morte   violar-nos   tirar
do mais fundo de nós o mais útil segredo
entre nós e as palavras há perfis ardentes
espaços cheios de gente de costas
altas flores venenosas   portas por abrir
e escadas e ponteiros e crianças sentadas
à espera do seu tempo e do seu precipício

Ao longo da muralha que habitamos
Há palavras de vida há palavras de morte
Há palavras imensas,que esperam por nós
E outras frágeis,que deixaram de esperar
Há palavras acesas como barcos
E há palavras homens,palavras que guardam
O seu segredo e a sua posição

Entre nós e as palavras,surdamente,
As mãos e as paredes de Elsenor

E há palavras e nocturnas palavras gemidos
Palavras que nos sobem ilegíveis À boca
Palavras diamantes palavras nunca escritas
Palavras impossíveis de escrever
Por não termos connosco cordas de violinos
Nem todo o sangue do mundo nem todo o amplexo do ar
E os braços dos amantes escrevem muito alto
Muito além da azul onde oxidados morrem
Palavras maternais só sombra só soluço
Só espasmos só amor só solidão desfeita

Entre nós e as palavras, os emparedados
E entre nós e as palavras, o nosso dever falar.

Mário Cesariny

Homenagem a um grande poeta e pintor que hoje nos deixou... Os seus poemas, esses, torná-lo-ão sempre inesquecível e memorável.

publicado por Vânia Caldeira às 21:39

 

Fecho os olhos por instantes.

Abro os olhos novamente.

Neste abrir e fechar de olhos

já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;

outros lábios o respiram;

outros aléns se tingiram

de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;

outro vento as despenteia;

outras ondas invadiram

outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,

fluidez sem transparência.

Presença, espectro de ausência,

cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.

Corpo que a arder arrefece.

Incandescência sombria.

Tudo é foi. Nada acontece.

 

Porque no dia 24 de Novembro se celebraram 100 anos desde o nascimento de um dos meus indubitáveis poetas favoritos, de nome: Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, que não foi um descobridor da Índia, mas foi, certamente, um dos descobridores da língua portuguesa, uns dos que melhor navegou nos mares da poesia e da imaginação. A ele este poema... porque tudo é foi.

publicado por Vânia Caldeira às 21:03

21
Nov 06

 

Não nos apercebemos da importância da novidade na nossa vida até a testemunharmos verdadeiramente... Podemos ser sempre racionais, pensar em tudo como se o tudo fosse importante, podemos ter medo... Medo de tudo... Medo das convenções, do que os outros vão achar, do que vão dizer, medo de arriscar, medo das consequências, medo.. medo... medo. E ele paralisa-nos...

Mas quando nos deixamos contagiar pelo risco, pela incerteza, pela dúvida, pela novidade, pela diferença... e sobretudo quando nos deixamos cativar pelo que não podemos saber, podemos estar muito melhor com nós mesmos...

Sentir nos cabelos a aragem de um vento doce e suave que nos guia, sem sabermos para onde... E termos uma vontade implícita de nos deixarmos guiar, sem saber, no fim, qual será o destino, qual será o futuro.

publicado por Vânia Caldeira às 20:01
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19
Nov 06

"Não fui

o que os outros foram.

Não vi

o que os outros viram.

Mas por isso

O que amei

Amei sozinho."

Edgar Allan Poe

publicado por Vânia Caldeira às 15:48
sinto-me: diferente
música: Edgar Allan Poe
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16
Nov 06
Tu, que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares,
Longe da luta e do fragor terreno,

Acorda! é tempo! O sol, já alto e pleno,
Afuguentou as larvas tumulares...
Para surgir do seio desses mares,
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! é a grande voz das multidões!
São teus irmãos, que se erguem! são canções...
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro,
Sonhador, faze espada de combate!

                      	Antero de Quental

publicado por Vânia Caldeira às 22:13
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14
Nov 06

Os EUA são uma potência mundial... Mas se em termos económicos são um país avançado, no que toca as mentalidades... A pena de morte sempre me indignou. Não concebo a ideia de um país poder decidir sobre a vida de alguém, não aceito a hipótese de uma lei poder matar. Simplesmente não me parece lógico, nem correcto... Nem uma atitude caracterizada pelo Novo Mundo.

Se uma pessoa, neste caso um juiz, pode decidir "matar" alguém, pelos seus crimes... Também a eutanásia deveria ser aceite como legal... Ou seja, também cada um de nós deveria ter uma certa liberdade, a nível legal, de decidir o que fazer com a sua vida.

Lembro-me de um filme em que um homem, de raça negra (como sempre, os mais injustiçados perante a lei), é acusado de ter morto uma funcionária de uma loja, quando se acaba por descobrir que só a tentou ajudar. Apesar de permitir constatar a injustiça a que uma pessoa poder ser submetida, pois só por pouco a pena (e, por sinal, irreversível) não é mesmo aplicada, o filme não é tão marcante... porque acaba bem... Mas podia acabar mal. Se uma pessoa é condenada a 20 anos de cadeia ou mesmo a prisão perpétua... se se descobrir que e inocente... foi um erro, sem dúvida. Mas pode ser corrigido.

Se ela for condenada à morte.... Há uma verdade impossível de repor... Uma vida injustiçada, pelo próprio país, pela própria lei... em vão.

Greenmile.... um dos meus filmes favoritos. Porque final não é feliz... Porque sempre que o vejo estremeço com a imagem de cada execução... Porque evidencia tudo o que pode ocorrer quando a condenação à morte existe... O prisioneiro condenado (também é negro) tem um dom especial... de curar as pessoas, os seus males. E acaba acusado de violar e matar 2 meninas, quando na verdade as tentava ajudar. No fim, morre mesmo. Porque apesar de todos os guardas do corredora da morte perceberem que é inocente e de o levarem mesmo para cuidar de uma mulher com cancro, nada podem fazer. É irreversível.

 Mas há mais... Apesar de a maioria dos guardas daquele corredor ter um sentido de humanidade e respeito pelos condenados bastante acima da média, nem todos são assim. Há um guarda que detesta, desrespeita e goza com todos os prisioneiros e, particularmente, um deles. Nos seus últimos momentos, não se limita a destruir-lhe os sonhos e esperanças, como também, no momento da execução, não molha propositadamente a esponja (que deve ser colocada na cabeça) em água... Resultado: o choque que deveria passar rapidamente para o cérebro e matar o homem em pouco tempo; acaba por demorar muito mais: ouvem-se os prolongados e conscientes gritos de dor do homem, o seu corpo arde, as pessoas chocam-se...

Saddam fez coisas indiscutivelmente horríveis... Mas condená-lo à morte é tão cruelmente semelhante aos actos que  próprio cometeu.... Peço desculpa, mas simplesmente não compreendo.

publicado por Vânia Caldeira às 23:16
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10
Nov 06

"Charles Joseph aprendeu a língua italiana com toda a facilidade e destreza. (...) Por vezes, substituía o estudo da tarde por um passeio a cavalo com o pai. Este ensinava-lhe tudo o que necessitava de saber sobre como caçar um veado ou como se desviar de um javali desembestado. Aprendia também tudo o que deveria saber para viver na corte: precedências, maneiras, modos de falar; seria um representante digno daquela casa. Não desejara ingressar em nenhuma ordem eclesiástica, embora à partida tivesse a garantia de um lugar de destaque em qualquer uma: um príncipe não deixaria de ser um bispo, ou um arcebispo, de alguma diocese importante. Não era esse, porém, o caminho que lhe estava destinado. Preferiu a carreira militar e as Letras, que eram a sua verdadeira paixão. Passava horas infindas a ler e a meditar sobre o que lia. As velas apagavam-se de noite e ele voltava a acender mais uma, e mais uma, até deixar cair a cabeça de exaustão. Tudo lhe interessava, desde a história às ciências, desde a religião à física. (...)

Sempre que necessário, deixava tudo isto para trás. Sabia quais eram as suas prioridades e não pretendia arruinar a vida em demanda do prazer puro. Haveria, certamente, outras etapas da sua existência em que poderia desfrutar dos frutos proibidos e de tudo o que eles apresentavam de sumarento e agradável. Assim, em menos de três anos, defendeu as suas públicas conclusões com aplauso de todos."

Maria João da Câmara, in Um Príncipe Quase Perfeito

publicado por Vânia Caldeira às 20:07
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Há dias em que chego a casa de rastos... Porque ao ver os meus colegas de anos mais avançados com tudo na ponta da língua... sinto que não vou ser capaz... Tenho medo de não conseguir... E sobretudo dúvidas, uma enorme incerteza que me corrói como um cancro alastrando. Tudo é incerto e confuso... Nada é garantido.

O desafio é difícil, a meta elevada... Será que estou à altura? Poderei eu ser como o são os meus colegas? Serei eu uma boa médica?

Entre dúvidas e angústias só há uma coisa que me consola... Podia pensar em desistir, em voltar para Letras, em mudar para qualquer outro curso na área da Saúde... simplesmente desistir! Mas não... Nunca! Por muito que não acredite suficientemente em mim para abolir todas estas dúvidas de vez, uma coisa é certa: não duvido que estou no curso certo, não duvido que é aqui que vou ser feliz, que é aqui que quero ajudar os outros a sê-lo. Porque apesar de ter consciência do caminho de trabalho, da falta de tempo para mim e para a minha vida que me espera... sei uma coisa: QUE NO FIM,  VALE A PENA!

publicado por Vânia Caldeira às 19:55
sinto-me: sonhadora

05
Nov 06

"A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.


Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada.
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zanguem com ela.
São tolerantes com ela.
O que era eu um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.
A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.
E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem por que ficou ali.





Álvaro de Campos, 1929

 

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publicado por Vânia Caldeira às 23:10
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