Para sonhadores... Deixem-se levar... O blog mudou de cores, mas os sonhos são os mesmos...

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Mai 06

"Há entre as figuras que compõem o meu ser duas encarniçadas, uma contra a outra. Há uma que crê, outra que não crê. Há uma capaz de todas as cobardias, outra capaz de todas as audácias. Há uma pronta para todos os rasgos e outra que observa e comenta. Mas há entre as figuras que compõem o meu ser uma que está calada. É a pior. Olha para mim e basta olhar para mim para que eu estremeça."

Raul Brandão

publicado por Vânia Caldeira às 20:41
música: "Húmus"
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Observo os miúdos correndo pela areia completamente despreocupados. E é nesta atenta observação que me apercebo das semelhanças entre a nossa vida, os nossos sonhos e projectos e este meio aparentemente tão calmo e desprovido daquilo que possamos adjectivar de “quotidiano”.
Novo olhar em meu redor... Umas ocupam-se com seriedade e perfeição de arquitecto na construção de ambiciosos castelos; outras preferem a emoção e a adrenalina, “voando” na crista das ondas, hoje definitivamente mais acentuadas do que é costume.
Percebo então, olhando além das ingénuas brincadeiras de criança, estar a ver o meu próprio mundo. A nossa vida são ambiciosos projectos que traçamos e que, com esforço, transformamos em vanguardistas construções. Mas que, dum momento para o outro, tal como os castelos são pisados por outra criança ou destruídos pelas ondas do mar, também a nossa vida se desmorona sem uma única justificação ou um pedido de desculpas...
A nossa vida tem sonhos, metas, objectivos que nos levam a voar alto, ir mais além, sentirmo-nos omnipotentes, qual os pequenos bruscamente elevados pelas ondas do mar... Mas há o voo arriscado e a queda brusca, tal como a vaga que se ergue alta para de seguida bater, com toda a força, novamente na areia. Também nós, depois de sonhar, enfrentamos a dura e cruel realidade. E que realidade é essa? Aquela que algures bem perto, para lá deste paraíso sossegado, deste mar inspirador e deste sol intenso que queima e não deixa ver, há uma selva por desbravar, um mundo de intriga, violência e corrupção, onde os sonhos já quase não são possíveis e onde a nossa condição se resume àquela que foi imortalizada por Camões: um mero “bicho da terra tão pequeno”.
publicado por Vânia Caldeira às 20:33
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Estas são as três palavras de ordem dos últimos meses. Coragem para lutar, esperança para viver e desânimo, que é o sentimento que mais se vive neste momento de rescaldo.
Vivemos numa época em que até aquilo que parecia impossível deixa de o ser e acontece mesmo. Assim e, simultaneamente, silencioso, imponente e impetuoso o fogo chegou e ergue-se sobre tudo e todos. Estávamos preparados? Não! Como nunca estamos... O país atravessa uma crise. Uma não, várias! Crise na economia, nas crenças, nos costumes, nos valores, ... na própria esperança. As notícias que todos os dias acusam caras conhecidas (aquelas que eram o exemplo) dos mais bárbaros e desumanos crimes e trafulhices, fizeram-nos desacreditar em tudo. Quase deixámos de sonhar... De um momento para o outro confrontaram-nos com a mais dura e cruel realidade...
E ainda mais esta!... O povo já cansado das tristes notícias que se ouviam e comentavam ainda foi confrontado com uma vaga de incêndios de que há muito não falava a história.
Homens e mulheres corajosos, lutadores, autênticos guerreiros procuram defender os seus lares e haveres e os dos outros. O companheirismo é o sentimento que domina. Bombeiros e mesmo soldados lutam todos os dias frente a um lume áspero e sombrio, verdadeiramente tenebroso, que parece pensar e escolher por onde atacar. Os danos são muitos e incalculáveis... Casas queimadas, pessoas mortas pelo chamas, escombros por todo o lado, cinzas em vez de hortas, jardins e pomares, cinzento em vez de verde...
Só resta a esperança dos que não desistem e sabem que a vida tem de prosseguir... E vêem ao fundo uma luz, brilhando ofusca, como o sol entre os altos e negros fumos... E depois o desânimo... O baixar dos braços de quem os ergueu, os sonhos por terra, as esperanças caiem na realidade e as pessoas sentem-se desfalecer... Contra tamanha força da Natureza, do Diabo ou de Gente Má (conforme as diversas teorias) Portugal arde, ao sabor da vontade do gigante laranja e vermelho que se move, como procurando algo que ainda não encontrou, como em missão, como vingativo... E chegam as ondas de solidariedade... Será que conseguirão elas repor tudo aquilo que os fogos roubaram: as casas, as pessoas, mas acima de tudo... essa coragem, essa esperança e essa vontade de viver, de começar tudo de novo, de reconstruir uma vida esquecendo uma que tanto esforço exigira? De ganhar força para recomeçar do negro, dos escombros e das cinzas? Ou direi melhor... do NADA???!!!
publicado por Vânia Caldeira às 20:31
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“Sento-me aqui nesta sala vazia e relembro. Uma lua quente de Verão entra pela varanda, ilumina uma jarra de flores sobre a mesa. Olho essa jarra, essas flores, e escuto o indício de um rumor de vida, o sinal obscuro de uma memória de origens. No chão da velha casa a água da lua fascina-me. Tento, há quantos anos, vencer a dureza dos dias, das ideias solidificadas, a espessura dos hábitos, que me constrange e tranquiliza. Tento descobrir a face última das coisas e ler aí a minha verdade perfeita. Mas tudo esquece tão cedo, tudo é tão cedo inacessível. Nesta casa enorme e deserta, nesta noite ofegante, neste silêncio de estalactites, a lua sabe a minha voz primordial. (...) ... esta verdade que me queima quando vejo o absurdo da morte, se pretendo segurá-la em minhas mãos, revê-la nas horas do esquecimento, foge-me como fumo, deixa-me embrutecido, raivoso de surpresa e de ridículo... (...) Conheço-me o deus que recriou o mundo, o transformou, mora-me a infinidade de quantos sonhos, ideias, memórias..."

  

Vergílio Ferreira

in “Aparição”

publicado por Vânia Caldeira às 20:29
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sexta-feira, 24 de Setembro de 2004
 
Nunca acreditei muito no Amor, entidade estranha e misteriosa, credível apenas nos grandes romances e histórias de amor. Entidade com poder para glorificar filmes ou vender livros... Fonte divina de inspiração para poetas, nota primeira dos músicos. Nada mais que isso... Pelo menos... até há uns tempos!
Vivemos num tempo em que se perpetuam as relações fúteis, baseadas em rotina, sexo e mentiras, vazias de sentimentos sinceros ou ingénuas intenções. Parecia-me, por isso, impossível, num tempo como o nosso, poder dizer-se que duas pessoas foram feitas uma para a outra ou falar em “almas gémeas”...
“Em busca do tempo perdido”... É isso mesmo!
Há poucos meses conheci um rapaz no Bar da Quinta, verdadeiro exemplar de beleza, simpatia e elegância. Com o passar do tempo percebi que as suas qualidades só podiam aumentar: é bem-disposto, estuda “Línguas e Literaturas Modernas” na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa e é muito trabalhador.
André!... O nome flui na minha cabeça como uma torrente de água correndo num só sentido, com uma só força. Por duas vezes esteve na minha mesa, meros acasos ou situações que propiciou. Nesse dia, porém, tudo foi tão diferente...
Ao fim de algumas bebidas oferecidas, perguntou-me serenamente se estava a ler alguma coisa, enquanto fixava o seu atento olhar no meu. Não entendi... Repetiu.
Foi então que me disse que tinha um óptimo livro para me emprestar... Sorriu e foi atender outra mesa.
Cerca de quinze minutos mais tarde, continuo a observar-lhe os movimentos como, aliás, fiz durante toda a noite. O meu olhar segue-o enquanto pega na chave do carro, vendo-o desaparecer na porta, para pouco depois reentrar com o seu sorriso sincero e um livro na mão...
“Em busca do tempo perdido”: falou-me dele noutro dia – parece ser o seu livro favorito... E está agora nas minhas mãos, suportando toda a sua essência, sensibilidade, todo o seu espírito. Lembrou-se de mim... Trouxe-me o seu livro. Parece uma dessas histórias dignas de um romance: não, não estou a sonhar!
Marcel Proust...
Volta a chegar-se à mesa dizendo que tem imenso tempo. Pega no livro (que eu colocara com todo o cuidado, com todo o carinho, ao meu lado num banco), abre certeiramente na página desejada e aponta, terno, um parágrafo. Recomenda-me que o leia e sai, deixando no ar o seu charme e em mim enormes emoções incertas. Página 398... Não esquecerei jamais este número, aquela página, aquele parágrafo... E sobretudo aquilo que ele significa, a forma como foi premeditadamente escolhido e dedicado... a mim!
«E pensar que estraguei anos da minha vida, que desejei morrer, que dediquei o meu maior amor a uma mulher que não me agradava, que não era o meu tipo.»
Agora acredito, talvez ingenuamente, que esse Amor é possível e que se constrói, dia após dia, com gestos, sorrisos, surpresas, ...
Embora ler seja um prazer e um hábito desde pequena, nunca pensei que um livro viesse a ter um significado tão profundo para mim. Hoje sei, depois de uma atenta e especial leitura, que Marcel Proust faz constantes invocações ao poder e à importância da memória enquanto construção de um mundo habitável, enquanto forma única de criação de uma verdadeira humanidade. E percebo. A mesma memória que o autor faz nascer numa personagem ao provar as doces madalenas (que lhe recordam pessoas e situações) vejo espelhada neste livro de capa branca. Ser-me-á impossível, no futuro (mais ou menos distante), dissociar este livro, esta capa, este título ou mesmo o autor, de uma experiência única e inesquecível da minha vida, de um momento fantástico da minha adolescência, de uma pessoa extraordinária que conheci e sobretudo de um nome... que nem sequer aparece no livro: André.
À saída agradeci, meti conversa, descobri variadíssimas coisas da sua vida, o seu número de telemóvel e guardei, como um tesouro, um delicioso beijo, um livro prometedor e um simpático e tímido “Fico à tua espera...”.
Este rapaz anda “em busca do tempo perdido” e, no entanto, na sua companhia, parece inconcebível existir o conceito de “tempo perdido”. Quem não perdeu mais tempo fui eu que me dediquei verdadeiramente à apaixonante leitura daquela irrefragável proposta... Dediquei-me a ler e, claro, a sonhar...
 
Vânia Caldeira
 
sexta-feira, 31 de Dezembro de 2004
 
«...essa angústia que existe em sentir o ser que se ama num lugar de prazer onde não estamos, onde não podemos estar com ele, foi o amor que lha fez conceder, o amor, ao qual essa angústia está de algum modo predestinada, pelo qual será monopolizada, singularizada; mas quando, como comigo aconteceu, ela entrou em nós antes ainda de ele ter aparecido na nossa vida, ela flutua à sua espera, vaga e livre, sem afectação determinada, um dia ao serviço de um sentimento, amanhã de outro, ora de ternura filial, ora da amizade por um colega.»
Marcel Proust
“Em busca do tempo perdido – Do lado de Swann” (p.37)
 
 
sexta-feira, 27 de Maio de 2005
 
Adeus André! Sim, adeus! Escusas de vir com os teus contos de fadas, a tua voz melodiosa ou o teu tom doce... Escusas de tentar novas investidas, de exibir o teu sorriso n.º10, de demonstrar o teu conhecimento... Escusas de vir com lições de vida, com convites inesperados, com propostas tentadoras... Escusas também de tentar fazer-me ciúmes com outras, de me procurares no café ou de tentares fazer-te de vítima... Escusas! Tudo é, por demais, escusado!
Luto, à meses, contra ti e contra mim mesma: contra esta paixão que me cegou, atolou e prendeu!
Via todos os teus defeitos e eles chegaram mesmo a arder-me na pele... mas continuava presa à imagem perfeita e inexistente que para ti eu própria criei!
Tens estado a jogar e a fazer batota! Porque acreditas que, no fim, só tu podes ganhar! Porque sempre foi assim, porque não concebes que seja de outra forma...
Não me deves nada, nunca me prometeste absolutamente nada. No entanto, cada vez que me tento afastar de ti, consciente da enorme distância entre o que és e o que eu te concebi, vens com o teu jeito que enrola e prende.
Mas chega! Há cerca de cinco meses atrás propus-me a esquecer-te... Poucos dias depois oferecias-me, inesperadamente, um CD da Inoportuna. Não me mandas toques nem mensagens nunca, a não ser que me sintas mais distante.
Por isso chega! É uma decisão que me parece definitiva, a derradeira decisão, o último adeus... porque não é uma despedida motivada, como há meses, pela pura razão, pela voz da consciência! É um adeus sentido, magoado e profundo... Sei que não me estou apenas a tentar convencer: sinto que cansei deveras!
Seremos, com prazer, amigos se souberes aceitar que, desta vez, a história escreve-se de outra forma, o jogo termina aqui, tudo aquilo que te dei passo a dá-lo a mim mesma... Amigos sim, se conseguires aceitar que, desta vez, quem ganhou o jogo... fui eu!!!
 
Vânia Caldeira
 
 
sexta-feira, 1 de Julho de 2005
 
Embora ainda me sinta tentada, várias vezes, a perscrutar com o olhar os mais perfeitos recantos do corpo do Pinto, torna-se cada vez mais certo e inevitável a descoberta dos seus irremediáveis e egocêntricos defeitos.
Mas não resisto a pensar... Como tínhamos uma história perfeita.
Tudo, excepto ele, era perfeito na nossa relação e prometia acabar bem. Vivemos uma história digna de um filme ou romance...
Desde o facto de eu, a início, nem sequer reparar nele, os seus idiotas piropos iniciais, a surpresa quando apareceu a trabalhar no bar, o facto de estudar Letras...
Depois foi o livro que trouxe. Tal como o começo das grandes e imprevisíveis histórias de amor! E os momentos de ingénua paixão com expressivos e carinhosos olhares, com toques infantis, com histórias para contar, com mensagens sobre tudo e a toda a hora.
Começaste então a querer cruzar os nossos percursos, ora dizendo, quando eu tinha como destino outro local “Então hoje ficamos por aqui”, ora com convites para sair contigo.
Docemente foste aprisionando o meu olhar no teu...
No Carnaval só tu conseguiste fazer-me sair. Eu, que detesto essa época do ano. Levaste-me à vossa república, àquele espaço secreto e reservado onde o vosso grupo se reúne e disseste-me que fui a única rapariga a ter conhecido tal local.  E continuavas a prender-me, gesto após gesto.
Outra parte bonita do nosso romance: quando apareceste corajosamente no meu café, vindo do trabalho, estranhamente com as calças todas sujas e a t-shirt branca muito limpinha... Acabaste por confessar que a trouxeras de propósito no carro...
Uma única vez... Não mais lá apareceste! Olho uma e outra vez os tubinhos com as inscrições “Bar da Quinta” que me deste... Estão carinhosamente guardados ao lado da minha foto... Olho o livro de Marcel Proust...
André... “Como te lembro... Como me dóis.” Foste a minha prisão, o “ossuário dos séculos e dos sonhos dos homens” donde me libertei.
Tu eras de Letras... Podias ter escrito um final mais bonito na nossa história... Ah, se podias...
publicado por Vânia Caldeira às 20:26
sinto-me:
música: Sei-te de cor (Paulo Gonzo)
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